Retirai-vos do amor, para que não sejais ferido e morra. Daí não comerás nenhuma carne, terás cuidado ao andar com todo o teu coração. Também ferirás os moralistas, desvirtuadores das leis. E eu te tenho levantado uma casa para morar e um lugar para o teu declínio. Mas verdadeiramente estarás livre de todo o amor na terra? Pois já as tuas chagas cheiram mal e não há coisa sã em tua carne. Descontrolas o ventre da vida, incendeias a minha preguiça. Por que está abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Por que te fartas em proporção dos teus ciúmes? Quem é comigo, para que entendas essas coisas? Mas, decerto, eu sou cheio de juízo e de ânimo, para entregar-me ao mais ríspido e lastimável amor. E os videntes se envergonharão, os lançarei fora de minha casa. Quanto a quem amo, a sua glória, como barro nas mãos do oleiro, não haverá mantimento, ausência, nem tampouco concepção.
utopya
ou eu, Wandeilson Lucena
sexta-feira, 3 de maio de 2013
O cervo
Retirai-vos do amor, para que não sejais ferido e morra. Daí não comerás nenhuma carne, terás cuidado ao andar com todo o teu coração. Também ferirás os moralistas, desvirtuadores das leis. E eu te tenho levantado uma casa para morar e um lugar para o teu declínio. Mas verdadeiramente estarás livre de todo o amor na terra? Pois já as tuas chagas cheiram mal e não há coisa sã em tua carne. Descontrolas o ventre da vida, incendeias a minha preguiça. Por que está abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Por que te fartas em proporção dos teus ciúmes? Quem é comigo, para que entendas essas coisas? Mas, decerto, eu sou cheio de juízo e de ânimo, para entregar-me ao mais ríspido e lastimável amor. E os videntes se envergonharão, os lançarei fora de minha casa. Quanto a quem amo, a sua glória, como barro nas mãos do oleiro, não haverá mantimento, ausência, nem tampouco concepção.
quarta-feira, 24 de abril de 2013
O Zelo
E apedrejava com pedras aquele amor que lhe tirava a cabeça. E se ele retirava-se para alguma cidade, todo o encanto traria antipatia àquela cidade. E vinham de todos os povos a ouvir a sabedoria dos amores fatídicos, porque tinham um grande sacrifício. E os dias em que reinavam a bonança e o verão, reinventavam-se os holocaustos, manjares; perdições divinas. Porque se aquele menino nada sabia do amor, conhecia bem o seu tempo determinado.
segunda-feira, 22 de abril de 2013
Grande coisa
Eu faço grandes coisas. Seco a vida, murcho a figueira, desmancho a flor. Quem sabe se o amor voltará, e se arrependerá, e fará com o que todos regojizem-se no mais puro linho de seda? Quem sabe se o coração valerá mais do que nossas vestes, e santificará o mantimento diante de nossos olhos? Eu sou uma grande coisa. Ah! Grande coisa! Porque eu sou um bezerro domado, gosto de trilhar. Eu tenho grandes coisas. Gosto dos homens mais velhos, dos tímidos e incrédulos ao falarem de amor. Por que disputais comigo? Eu sou o vinho que te excita, o cigarro que te põe enfermo, a romagem dos teus alucinógenos. Sou tua demência. Quanto a mim, tu me sustentas no meu atrevimento e me puseste diante da euforia para sempre.
segunda-feira, 25 de março de 2013
Herança
Porque em todas as palavras de amor há enfado, em lugar de cheiro suave. O coração tropeça, levanta-se pela manhã e segue a bebedice. E alegro-me por causa dele, porei o meu temor nos corações dos homens avacalhados. E, recebendo eu amores, murmurarei contra os céus, fazendo injustiça, comendo a carne dos santos. E aquele que jurar por amor, isso nada é, mas aquele que jurar pela carne, dará de comer aos seus caprichos. Depois, em casa, conseguirás amar por inteiro, quando por volta das doze, tuas mãos estiverem trabalhando, para que a vida escorra entre tuas pernas. E, tomando-a nos teus braços, a açoitará, cuspirá e matará. Esta é a herança dos que dormem ao invés de amar.
segunda-feira, 18 de março de 2013
Quando fores dormir
Quando fores dormir, lembra-te dos dias em que te segurei. E amanhã terás pão e água, herdarás a palavra, atenta para os teus passos. Lembra-te dos beijos que cresceram em entendimento, pequenos e desprezados, mas livres e puros dos corações impiedosos. Os teus berros, as tuas astúcias, acima de todas as perturbações. Lembra-te do meu aniversário, das lembranças abreviadas. Digo, porém, os afastamentos, não os teus, mas os dos outros. Lembra-te também das muriçocas sendo de novo geradas, debaixo das cobertas, pelo ciúme que se estende entre um gole de café e um maço de cigarro. Mas quero lembrar-te, como a quem já uma vez lembrei, que, ao amar-te, estarei passeando no inverno, para que me acompanheis aonde quer que eu for.
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