Quando fores dormir, lembra-te dos dias em que te segurei. E amanhã terás pão e água, herdarás a palavra, atenta para os teus passos. Lembra-te dos beijos que cresceram em entendimento, pequenos e desprezados, mas livres e puros dos corações impiedosos. Os teus berros, as tuas astúcias, acima de todas as perturbações. Lembra-te do meu aniversário, das lembranças abreviadas. Digo, porém, os afastamentos, não os teus, mas os dos outros. Lembra-te também das muriçocas sendo de novo geradas, debaixo das cobertas, pelo ciúme que se estende entre um gole de café e um maço de cigarro. Mas quero lembrar-te, como a quem já uma vez lembrei, que, ao amar-te, estarei passeando no inverno, para que me acompanheis aonde quer que eu for.
segunda-feira, 18 de março de 2013
domingo, 10 de março de 2013
Bike - O Conto
E lá vinha ele outra vez, montado numa bicicleta. Ela já o esperava: olhava-o fixamente da janela, sem nem por um minuto desviar o olhar; saberia dizer se aquele dia seria agitado. Os dois pareciam estar conectados com a noite. Ambos os olhos arderam, quando o véu da noite rasgou o clarão das estrelas, junto com a lua e todos os astros que orbitaram a favor de mais uma eventualidade. E um simples aceno a fez mulher. O coração saltitando. O suor. A tremedeira nas pernas. O seu amado a esperava lá embaixo, com o que mais tinha de valioso: uma bicicleta. Nada de jantar, só um passeio de bicicleta. Talvez o bilhete para o desconhecido. Talvez não. Era só um passeio de bicicleta.
A noite muito fria e suculenta, o vento parecia estar embalando mais um caso de amor. Contudo, a menina não hesitou. Vestiu-se de pano de saco, com sua boina amassada, empoeirada por viver despreocupada, jogada em algum gaveteiro velho; e desceu as escadas, ao encontro de seu jovem rapaz. Um jovem forte, que a alimentava de palavras nesses dois anos de pura adrenalina.
Com um sorriso malicioso, ele pôs a bicicleta no chão e a abraçou. Nossa, que espetáculo! Um abraço no meio da noite, numa rua despovoada. Encostou seus dedos em sua nuca, ela o fez de despercebido. Depois, as línguas encontraram-se nervosas, doidas para uma troca de salivas. E o rapaz, com dedos largos e muito brancos, acariciou o doce rosto da menina, que agora permanecera de pé, pronta para o passeio.
Luzes. Multidões. Agitação. Correria. Isolação. As mãos dadas protegiam qualquer movimento extravagante. Os dois não se importavam, estavam suando. E o contraste de seus olhos era o portal para os sentimentos mais desconhecidos deste mundo. Porque os olhos conversam.
A bicicleta, a peça fundamental para o rodeio. O rapaz foi gentil, carregou a moça. Agora força nos pés. Enquanto os céus se abriam, mais um beijo era correspondido. Logo logo estariam na casa de seus avós.
E foram-se a passear pela noite. As cores já estavam por vir.
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
Quando
Quando eu lhe esquecer, espero que me entenda. E, saudando-nos uns aos outros, espero que vá em paz. Não me prenda. Levantai os olhos para os céus, nossas dores andam desgarradas; cada um se desviará pelo seu caminho. Já não compro cigarros, coisa espantosa para o meu corpo. Troquei de amigos, conheci outras drogas; preparei a guerra comigo mesmo. Sei bem quem sou. Mas não me dou ouvidos. Sou o mais rebelde, ando murmurando. Não cuspo no prato que como, o enfio goela abaixo. Quando estivermos longe, dará à teu coração um macho ajuizado, que compre mais do que ame, que coma mais do que sinta. Meu bem, querido da mamãe, não sabes que o amor não sobrevive quando a carne apodrece? Assim, se cumpriram todas as coisas. Perversidade há em meu coração. São todas as palavras da minha boca. Agora vá, longe de mim. Procura um condenado.
domingo, 2 de dezembro de 2012
Reservado
Estou cansado. Estou morrendo. Estou só. Tô me afastando de tudo que me atrasa, me cativa, me censura, me quer bem. Não tenho tempo para amores cumpridos, sinto-me bem causando tumultos. E os amigos, todos grandes, chapados, modestos. Não há esperança, nunca houve. Estarei acabado nos próximos três anos, disposto a bater de frente com a morte. Por isso me tranco. Por isso me afogo, em qualquer brisa do bairro, qualquer cinza, qualquer vinho, qualquer droga. Ninguém vai tirar minha alma de mim. Sei brigar.
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Dropa comigo?
Dropa comigo? Conheci uma nova droga. Conheci um novo cara. Estou de romance, os atrasos já se foram. E o verão ferve, os beijos revivem. E o que tenho sentido nestes últimos meses não me faz falta, tenho o controle de meu coração. Sou bobinho, mas sei de meus defeitos, sei de tudo o que sou. Quando estou triste, canto. Quando estou feliz, rezo. E da vida nada quero, porque bati de frente com o mundo. Deixei velhos amigos, procurei por uma mãe, fui atrás de novos amores; não encontrei ninguém que me fizesse dançar. Mas tenho medo de mim, quando estou só, fumando um cigarro. Medo do clarão da noite. Medo de mim. Dias atrás voei, refiz o céu com cores talhadas, quis suicidar-me com amor. E não fumei nada, as minhas sedas ainda estão guardadas. Eu só usei a língua, a mesma que te afasta de mim.
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