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domingo, 12 de agosto de 2012

Éden


Sempre imagino Deus nos olhando. Cada fracasso, cada desânimo, cada cobertura. Nos meus dias de sono, quando os céus se queimam, mostro-me humilde diante do Senhor. E como qualquer outro homem fraco, sei de meus pecados. E Deus insiste em entrar aqui em casa, onde todas as portas são difíceis de desemperrar. A alma nega, no entanto, que sua grave crise tenha se dado bem nas suas quantidades. E o homem destrói, constrói e enterra. São azedos, amigos e necessitados. Cada um veste o que quer. Gritam, amam e desgastam-se. Que Deus nos joga no mundo e nos deixa por tão pouco tempo? Bandeira branca para os que serão saciados. 

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Carniça


Dentre as trevas que assolam o entardecer, o amor ressurge com um tom açucarado. Faz-se amor entre amigos, primos e irmãos; faz-se amor em tudo que é canto: na água, no mato e no lixo. Desvirtuaram a ternura divina: puseram meretrizes fartas de demônios e seus cantos adoecem os homens desta aldeia. Todavia, que é o amor? Constituído de coisa que se gasta, é guloseima aos olhos de meu povo. Ora, não há um só amor que dure, nem receio que machuque, nem criança que se esconda, nem mulher que se espante.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Monografia residencial


As coisas já não são mais as mesmas desde que minha mãe se foi. Não falo sobre futebol, sinuca, malhação... Não dou detalhes sobre a última garota com quem trepei. Ando inutilmente atordoado, paro de bar em bar, sinto-me incapaz de comer um doce e andar de bicicleta. Esgotou-se minha fé, dei crédito a muita burrice. Agora busco o meu fumo, acendo os meus cigarros, ausento-me do Blues, durmo no chão. 

quarta-feira, 7 de março de 2012

Alegria e triunfo nos céus


Cada morto com seu cajado,
Cada morto com seu remorso
Foi-se o Sol, negra está a Terra,
Foi-se a Lua, carmesim está a Terra.

Mal sabem os pequeninos
Que serão dias de pura agonia,
Importa que profetizes
Nestes dias de chama, nestes anos de fumaça.

O inferno está solto
À mercê de gente afoita,
Condenarás tu a tua própria laia?
Quando saíres à Rua com esta mesma boca?


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Hollywood


Agora, pois, temei ao amor. Então, o que sentes, escreve-o num livro e envia-o aos teus amantes, aos teus répteis, às tuas desgraças. Ora, amar e gozar o que nos resta, o mistério do amor encontra-se na tua boca: o que dizes é o que amas, se maldizes, o teu amor não comerá o bem desta terra. E a tua boca não repreenderá os teus demônios, e a tua vida não será cobiçada, e as tuas palavras serão incertas, e o teu nome será riscado. 


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Estância


Ando bisonho, meu coração já encontra-se exausto. Não tive ideia de quanta mágoa repousaria em meu peito. Ando completamente só, estou ao léu da nostalgia; minhas entranhas estão encardidas. Fui feliz. Revivi feliz. Hoje amei, suei, escrevi cartas, desenhei nas portas; fundamentei-me na concepção de um amor desconhecido. E já não havia mais aquela ambição pelo cigarro, todos os fumos desembestaram-se de casa. E de meu pulmão. Agredi muita gente ao falar de amor. Depois desta semana, amo até o meu passarinho.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Coroa



Cubro-me de candura
Estou amolecido
Repouso-me no regaço de Deus.

Dó de mim, Senhor!
Aqui ninguém deixa passar a luz
Aqui tem muita gente grosseira.

Mas levaste o meu coração
E rejuvenesceste os meus miolos.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Sabedoria


Deus? Quem é Deus? Ele existe? Você já viu Ele? Um certo conhecido disse-me. Na verdade, a gente não vê Deus, a gente o sente. É para poucos. Mas, de vez em quando, eu fico imaginando coisas sérias sobre Deus: De onde veio? Como é? É brasileiro? Tem dentes? Ouve música? Por que reside tanto amor no mundo? Toma banho? Deus é um quebra-cabeça, não juntei muitas peças. Mas Deus existe. E tem dentes.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Por você


Por você eu largaria a maconha, o cigarro, a cerveja. Por você eu mandaria fechar todos os barzinhos, os botecos, as avenidas. Esqueceria os maus gostos, as amizades de infância; o mundo. Assistiria a uma partida de futebol, é a cultura dos homens. Por você não haveria orgulho, estaria atento às coisas de Deus, passaria mais tempo em uma igreja do que em casa, contemplaria todas as coisas que foram feitas para nós. Perderia o meu medo do escuro, o suspense de amar. Por você eu amaria, sim. Amaria até ficar seco. E só por você, os outros não me chamam atenção. Mas, eu já falei tanto com Deus sobre nós, Ele parece não responder e, se responde, eu não entendo. Agora diga que amaria esse pobre miserável, esse cara que vive entupindo o peito de amor. Não! Não diga que amaria, diga que ama.

Para Viviane Carvalho,
com amor, trufas e poesia.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Paz



Ao invés de discutirmos assuntos imprevisíveis, deveríamos dar uma trégua nas nossas crenças. Dias atrás, eu li um texto de um senhor chamado Leonardo Boff. O sujeito me entupiu de expectativas, mas ao longo do texto, ausentaram-se. Sou teimoso e não sei viver com tanta quietude, eu ando construindo algumas idealizações. Resta saber se quero abdicar de minha ignorância, eu sou um cidadão que cultua conflitos. E também já estou ficando velho e não tirei proveito de muita coisa, só fiz guerra ao amor. Enquanto houver gente ignorante, Deus vai tá tomando um ventinho na varanda... 

sábado, 17 de dezembro de 2011

A 1 km da costa do inferno


Era uma estrada longa, muito longa. O clima estava afável, por incrível que pareça, não fazia calor nem frio. Não ventava naquele lugar, nenhuma folhinha tinha o direito de cair daquela árvore. Não era árvore frutífera, era árvore seca. Tudo era seco e cinza. Eu nem estava reclamando de nada, eu estava quase sonhando. E, quando me virei, eu vi uma fronteira: uma grande fronteira sustentada por dois pés, dois pés de homem. E lá ia o povo correndo, o povo tinha pressa. Eram passos acelerados. Depois, um portão: um portão de ferro. Um portão do tamanho de vinte e sete homens; era um portão. Esperava pacientemente alguém para me atender, estávamos todos atordoados e intrigados com os nossos sonhos. Os sonhos estavam de viagem. O portão se abriu, era um abismo: um grande abismo ofuscado, não tinha fim. Foi descendo um por um, depois dois por dois, dez por dez, cem por cem, quinhentos por quinhentos... Foi descendo todo mundo. Ninguém dizia uma palavra, eram todos mudos. A dor é para todo o sempre, vai ficar impregnada para sempre aqui, conosco. Depois a gente chora, depois a gente berra, depois a gente se arrepende. Enquanto os pedaços do meu corpo estavam na grelha, o meu coração não fazia mais parte de mim, ele tinha saído. O meu coração foi covarde, fugiu para não queimar comigo. Esse sim sempre foi esperto... Deus, logo mais me viu, não disse nada. Aquele clima afável tornou-se um clima de constante imprevisibilidade. E todos estavam em uma dança só: a dança das almas esbraseadas. Logo mais, teremos pedaços de carne espalhados pelos cantos, logo mais a gente passa a ser homem de novo. O amor tem nada a ver com isso.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Coisas de Deus


Nós, que somos errantes, temos uma mania danada de distorcer as coisas de Deus. Recebi uma carta ontem, Ele me disse que estava voltando. Ele tem pressa.



A soma


Dizem que tenho demônios dentro de mim... Fui atrás de um exorcista, nenhum homem de fé soube me dizer o que eu sentia. Também dizem que sou mal, Deus do céu! Eu só não consigo interpretar bem as coisas, sou estúpido. E ainda dizem que sou mal-amado também, mas só me amam por obrigação. Já guardei tanto amor no bolso, meu quarto tá uma desordem, tá faltando alguém. Roubaram minhas luzinhas de Natal...




terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Somos casais


Eu causo tanto desgosto, eu e meus vícios amorosos, eu e minhas paixões exorbitantes. Quase não tremo por amor, quase não choro por amor. O amor me vem nos fins de semana; quando os meus cigarros estão sob a mesa; quando o chão da sala vira plantação de fumo. Invejo que ama, quem tem flor no vaso todo dia; quem cuida verdadeiramente do coração; quem lava, passa, cozinha, quem ainda tem o resto da tarde pra fazer amor. Não conto os dias nem as horas, eu espero. Eu espero mais ansioso, eu espero mais faminto. Lá no fundo, no fundo mesmo, eu sou muito desconfiado, sou cabeça dura para acreditar em coisas benéficas do fundo do coração. Eu espanto qualquer um que me traga um gole de amor ao invés de cachaça. Não imagino que Deus possa ter criado tanto amor assim, eu ando vazio. Espero não morrer seco. E, não precisa sentir pena de mim, meu caro. É cada amor com seu tempo, cada mágoa, cada desesperança, cada ciúme com seu tempo; cada aborrecimento tem seu tempo. Agora irei dormir, tá um friozinho danado, preciso me agasalhar sozinho. Onde estão os meus cobertores? Visto a calça, as meias, a camisa, as luvinhas, o gorrinho. Calço as pantufinhas e deito-me em uma cama de casal. Somos casais: eu e aquele mesmo vácuo; aquele mesmo desterro. Então, cubro-me de lençóis, faço amor comigo mesmo, não tenho ninguém.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Entendimento


Deus conversa comigo e não entendo. Deus sussurra e ainda não ouço, Deus me guia e ainda estou cego. Largaria os amigos e as bebedeiras, acreditaria um pouquinho mais no que não se vê. Não rejeitaria sequer um sorriso, não execraria o amor. Deus ainda insiste, Deus é tolerante, não sei até quando. Pra ser sincero, Deus ainda me ama. Amor genuíno, sem malícia. Amor total. E Deus ama, Deus perdoa, Deus ama, Deus perdoa, Deus ama, Deus perdoa, Deus ama, Deus perdoa, Deus perdoa, Deus perdoa... Deus cansa. Deus não costuma ser nós, o que nos interessa são só os prazeres materiais. Deus não é palhaço, Deus não é besta. Deus é um espertalhão, conhece o que tu não conheces, sonda o teu juízo. E, clamo por um aconchego, não desista de mim só porque sou um imbecil, um miserável; outro pecador. Eu, às vezes tento Te entender, mas acabo gerando um choque de ideias. Se já não for tarde, peço que apareça por aqui, estarei Te esperando nos mesmos muquifos de sempre. Você gosta de chá? Te faço um chazinho quente e alguns juramentos. Quero entendimento, quero fazer as pazes. Somos amigos, eu sei.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A troca


E fez-se um sopro da boca de Deus
Fez-se o que tinha de ser feito

E as mãos eram do tamanho de uma rua
Sustentaram uma pobre infeliz

De cima chove, de cima cai fogo
E os olhos lacrimejam


sábado, 15 de outubro de 2011

Cisma


O que é a morte? Meus caros amigos cientistas e estudiosos não conseguiram definí-la por inteiro. Sempre falta algo, até nos dicionários que encontrei jogados aqui em casa. O que é morrer? Morrer? Morrer e ir aonde? Ou melhor, morrer e ir pra onde? Quanto tempo se leva até tudo se tornar mais árduo? Se morrer for bom, que os defuntos os digam! Tantos já se foram, tantos ainda estão aqui. Ouvi dizer que morrer é a única certeza que temos desta vida. Mas, e a vida eterna? É pós-morte? Às vezes, sinto-me incapaz de entender coisas tão claras. Então, te pergunto mais uma vez: o que é a morte? Nossa alma padece por aí quando morremos? E aqueles que nem alma têm? E aqueles que não sentem nada? Pra onde vão? Pra onde vão as sementes ruins da Terra? E os covardes sem amor, sem vontade de amar? E os que são feito eu? E os que sentem o que eu sinto? Não valem nada? Vejo muitos que morrem sem merecer, vejo muitos que sofrem sem merecer. Por que não morrem os que praticam injustiça? Por que não morrem os que estão contra Deus? Dá-se outra chance, e mais outra, e mais outra, até que não se reste mais nada, nada mesmo. Nada. Não se preocupe, você vai morrer um dia. Não terei a chance de te encontrar depois de morrer, ficarei sem saber o que se passa do mesmo jeito. Também não quero morrer agora, preciso abusar da vida. Eu sou um sujeito legal. Até agora nunca fiz uma boa ação, mas ainda sou um sujeito legal. Ainda quero juntar meus trapos dentro de uma mochila e sair por aí afora, quero conhecer o mundo. E nada mais, mais ninguém. Imagino-me morrendo antes dos sessenta, não desejo ultrapassar o tempo. Não quero morrer um velho nojento incapaz de subir algumas escadas, de fumar um cigarro, de ver ao longe; de subir num ônibus sem assistência, de ingerir bastante sal, bastante açúcar. E quem determina as coisas? Quem tem o poder? Deus! Sabe, Deus tá de mal comigo, estamos brigados. Estou sempre fazendo travessuras. Seria muito pedir para morrer? E que seja tudo escuro após a morte, que as coisas não se separem, que se acabem ali mesmo. Que não haja inferno ou qualquer outra coisa que me deixe pior do que estou. Porque eu não tenho medo da morte. É que ainda me falta coragem e disposição para tal questão...


Então, fiz uma micro lista das cinco coisas que apreciarei antes de morrer, antes dos meus sessenta:


1) as luzes do polar;
2) um natal em Nova Iorque, acobertado de neve;
3) um fim de semana nas florestas mais belas desse mundo;
4) o apocalipse de Seu João;
5) o amor.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Ninguém lembra de Deus



Ninguém lembra de Deus quando tá feliz
Quando recebe um bom dia de algum velhinho
Ou quando tá de mãos dadas com um outro alguém


Ninguém lembra de Deus quando ri
Quando a mesa tá farta em casa; família em festa
Ou naquele beijinho suave antes de dormir


Ninguém lembra de Deus na rua
Nas compras, na esquina, na calçada
Nos fiteiros, nas travessias, nos ônibus

Ninguém lembra de Deus nas rosas
Nas montanhas, nos bosques, nos campos
Definitivamente, ninguém lembra de Deus


Culpam Deus se tá frio, se tá calor
se não têm dinheiro, se o filho morre, 
se o pai se mata, se fulano rouba
se sicrano dá um tiro em beltrano
se chove nos dias de praia


Mas pensam que Deus não tem olho
nem boca, nem ouvido, nem mão
Pensam que Deus vive dormindo...


É que só lembram de Deus na fase terminal.